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Proibidos, lixões ainda são utilizados para descarte de resíduos no Brasil


Postado em 25 de setembro de 2019 - 7:56h

A cearense Lúcia Fernandes do Nascimento é uma entre milhões de brasileiros que não tiveram infância. A vida era dura em Reriutaba, interior do Estado, onde ela nasceu e de onde saiu aos 10 anos, com os pais e 13 irmãos, para ir morar em Brasília.

O trabalho duro a ajudou a forjar sua identidade. Mas sua essência natural, de cearense típica, já estava presente na fala direta, expansiva e na personalidade forte. Começou a trabalhar uma semana após ter chegado ao Planalto Central. Aos 10 anos, em uma casa de família. Ironicamente, tinha de cuidar dos filhos dos patrões. Justamente ela, uma criança.

Não foram poucas as vezes que disfarçou e, junto com os pequenos, aproveitou para brincar, fazendo dos brinquedos emprestados uma ponte para seus sonhos, estes sim, só dela. Deixou essa atividade aos 18 anos, após se casar e ter trabalhado um tempo no campo com o marido.

Mas, meses depois, ambos, já com filhos, resolveram arriscar e foram trabalhar no lixão da Estrutural, em Brasília, então o segundo maior do mundo. Foram com a esperança de que lá poderiam ganhar o suficiente para sobreviver.

Só que, com o tempo, ela foi conhecendo os perigos daquela profissão sem regulamentação. Muitas vezes trabalhavam 12, 14 horas, a céu aberto, respirando o ar insalubre, sem banheiro ou refeitório, correndo o risco de contrair doenças como leptospirose e dengue.

Ou de morrer em algum acidente, como ela viu acontecer com sua amiga, Glaice, com quem trabalhava até altas horas da noite.

“Comecei a trabalhar no lixão sem saber muito dos perigos. De repente fui me dando conta. A lembrança mais forte foi no dia que perdi minha amiga Glaice. Trabalhávamos juntas, conversávamos, dividíamos sonhos e frustrações. Ela morreu no chão da Estrutural, depois que uma carreta tombou em cima dela. Em outra ocasião, um rapaz chegou de madrugada numa carreta e morreu porque foi prensado em uma balança. Era triste. Depois que minha amiga morreu, nos colocaram numa ala sem equipamentos, separada. Mas já havia decidido que sairia do lixão, precisava de uma oportunidade para isso”, conta.

Fonte: R7